O diagnóstico tardio do câncer de colo de útero não é apenas uma tragédia humana, mas uma falha gritante das políticas públicas no Brasil, que sobrecarregam o SUS com custos exorbitantes e condenam milhares de mulheres a tratamentos extenuantes. De acordo com um estudo da MSD Brasil, baseado em dados de 206.861 pacientes entre 2014 e 2021, quanto mais avançado o estágio da doença, maior a demanda por quimioterapias, internações e visitas ambulatoriais, elevando as despesas do sistema público. É inaceitável que 60% dos casos sejam identificados tardiamente, especialmente quando isso reflete disparidades sociais profundas: a maioria das afetadas são mulheres não brancas, de baixa escolaridade e dependentes do SUS, enquanto até 80% das mortes globais ocorrem em países como o nosso, de renda média. Essa realidade expõe a negligência governamental em priorizar a prevenção, como a vacinação contra o HPV, disponível gratuitamente no SUS pela quadrivalente para adolescentes, mas insuficientemente promovida.
A pandemia de Covid-19 apenas agravou esse quadro sombrio, revelando a fragilidade do sistema de saúde público sob pressão. O estudo aponta uma queda drástica de 39,2% para 25,8% na proporção de cirurgias isoladas em 2020, além de uma redução de 25% em radioterapias, enquanto a quimioterapia sozinha aumentou em 22,6%, sinalizando lacunas graves no tratamento que podem custar vidas a longo prazo. Com o Instituto Nacional de Câncer estimando 17 mil novos casos anuais, é revoltante que o colapso hospitalar tenha interrompido cuidados essenciais, impactando sobretudo as mais vulneráveis. Os pesquisadores enfatizam que 99% dos casos derivam de infecções persistentes por HPV, tornando imperativa – e urgentemente negligenciada – a ampliação da imunização e do rastreamento.
Diante desse ônus econômico e social, as políticas públicas brasileiras falham miseravelmente em mitigar desigualdades, optando por remediações caras em vez de prevenção acessível. Enquanto a vacina nonavalente está disponível na rede privada para idades de 9 a 45 anos, o SUS limita a quadrivalente a grupos específicos, deixando brechas que perpetuam o ciclo de sofrimento. É hora de cobrar ações assertivas do governo para expandir a cobertura vacinal e o rastreamento precoce, ou continuaremos a pagar um preço alto por essa omissão crônica.

Deixe um comentário