É alarmante constatar que, mesmo com avanços científicos comprovando os perigos da bifenila policlorada (PCB), conhecida como ascarel, essa substância tóxica continua presente em inúmeras cidades brasileiras, representando uma ameaça invisível à saúde pública e ao meio ambiente. Usada antigamente em equipamentos elétricos como isolante, a PCB é classificada como Poluente Orgânico Persistente (POP) e foi banida pela Convenção de Estocolmo devido aos seus efeitos devastadores, incluindo câncer, problemas neurológicos, distúrbios hormonais e má-formação fetal. No entanto, a persistência de mais de 500 mil toneladas de material contaminado, conforme o Inventário Nacional de PCB, revela uma falha gritante na gestão ambiental, expondo populações a riscos desnecessários e prolongando uma herança industrial irresponsável.
O anúncio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) de investir R$ 30 milhões para a eliminação segura desses equipamentos, feito no Dia Nacional de Combate à Poluição, soa como uma medida tardia e insuficiente diante da magnitude do problema. Thaiane Resende, diretora de Qualidade Ambiental do MMA, alerta para os perigos, mas a realidade é que o Brasil, signatário da Convenção de Estocolmo, ainda luta para cumprir prazos: a identificação de contaminação deveria encerrar em 2024, e a eliminação total até 2028. Essa lentidão reflete uma negligência política crônica, onde empresas e instituições do setor elétrico, industrial e público demoram a agir, deixando o ônus para o futuro.
Pior ainda, a dependência de projetos como o PCB Responsável, que oferece orientações online e subsídios de R$ 1,2 mil a R$ 3,2 mil por tonelada para destinação por empresas licenciadas, não mascara a ineficácia sistêmica. É inadmissível que, em um país com legislação específica, a conformidade legal seja tratada como opcional, permitindo que penalidades sejam evitadas apenas por quem se mobiliza. Essa abordagem reativa, em vez de proativa, perpetua o ciclo de contaminação, exigindo uma cobrança mais rigorosa do governo para proteger a sociedade de um legado tóxico que já deveria ter sido erradicado.

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