Opinião

A triste partida de Veríssimo: o fim de uma era de humor crítico na literatura brasileira

A morte de Luis Fernando Veríssimo, aos 88 anos, neste sábado (30/8), representa uma perda irreparável para a cultura brasileira, especialmente em um momento em que o país carece de vozes sarcásticas e inteligentes para dissecar as mazelas sociais e políticas. Internado desde 11 de agosto no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, devido a um princípio de pneumonia agravado por sequelas de um AVC sofrido em 2021, o cronista sucumbiu a complicações que expõem a fragilidade do sistema de saúde diante de condições crônicas, deixando um vazio que nenhum sucessor parece capaz de preencher. Filho de Érico Veríssimo, ele construiu uma carreira marcada pelo humor refinado em obras como “O Analista de Bagé” e “Comédias da Vida Privada”, mas sua ausência agora amplifica o silêncio ensurdecedor em tempos de polarização política, onde o sarcasmo verissimiano poderia desmascarar hipocrisias com maestria.

É lamentável constatar como Veríssimo, que iniciou sua trajetória jornalística em 1966 no Zero Hora e se tornou um dos autores mais prolíficos com mais de 70 livros e 5,6 milhões de exemplares vendidos, tenha partido sem que a sociedade brasileira valorizasse devidamente sua contribuição para a reflexão cotidiana. Seu estilo único, misturando crônicas, contos e romances com toques de ironia, como em “A Grande Mulher Nua” e “Ed Mort”, contrastava com a banalidade da mídia atual, dominada por fake news e discursos vazios. Essa perda não é apenas pessoal – ele deixa esposa Lúcia Helena Massa e três filhos –, mas um golpe coletivo, reforçando a negligência cultural em um Brasil que ignora seus intelectuais até que seja tarde demais, perpetuando um ciclo de esquecimento que enfraquece nossa identidade nacional.

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